Escola de qualidade para TODOS!

Mais uma blogagem coletiva e, novamente, vou tentar abordar um tema que seja original – pelo menos entre os blogs participantes.

A pergunta proposta pela Meiroca e pela Georgia foi: O que você faz pra acabar com o analfabetismo no Brasil?

Quando falamos em por fim ao analfabetismo no Brasil, quase não nos damos conta de que o direito à educação, na nossa Constituição  Federal, é universal e irrestrito. Por isso, se realmente queremos erradicar esse mal da sociedade, não se pode falar em educação que não seja a EDUCAÇÃO INCLUSIVA. Quem inclui contribui para acabar com o analfabetismo!!! E como eu conheço – muito bem – uma pessoa que é autoridade nesse assunto no Brasil, vou reproduzir aqui um texto da pedagoga e consultora da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, Mara Lúcia Madrid Sartoretto – minha mãe. 

 

 

INCLUSÃO: TEORIA E PRÁTICA

Mara Sartoretto Consultora da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de DownDiretora da AFAD de Cachoeira do Sul – RSA TEORIA

 

Existe, em grego, uma palavra que significa a possibilidade de ver e analisar uma figura de todos os seus lados, sob todos os ângulos. A palavra é épora. Esse termo está sendo usado para definir a concepção essencial da inclusão escolar, isto é, a possibilidade de ver, de refletir, de analisar a escola sob todos os aspectos. A primeira evidência que surge desse tipo de análise, desse modo de ver a escola, é o fato de que a escola não esgota sua tarefa na mera transmissão de informações. Sua missão vai muito além. Mais do que nunca, torna-se clara a necessidade de uma educação voltada para os valores humanos, uma educação que permita a transformação da sociedade, uma escola que acredite nas diferentes possibilidades e nos diferentes caminhos que cada um traça para a sua aprendizagem, que possibilite a convivência e o reconhecimento do outro em todas as suas dimensões. Se consultarmos o dicionário, verificamos que a palavra incluir significa compreender, abranger, fazer parte, pertencer, processo que pressupõe, necessariamente e antes de tudo, uma grande dose de respeito. A inclusão só é possível lá onde houver respeito à diferença e, conseqüentemente, a adoção de práticas pedagógicas que permitam às pessoas com deficiências aprender e ter reconhecido e valorizados os conhecimentos que são capazes de produzir, segundo seu ritmo e na medida de suas possibilidades. Qualquer procedimento, pedagógico ou legal que não tenha como pressuposto o respeito à diferença e a valorização de todas as possibilidades da pessoa deficiente, não é inclusão.

 

A escola inclusiva, que se preocupa em oferecer condições para que todos possam aprender, é aquela que busca construir no coletivo uma pedagogia que atenda todos os alunos e que compreenda a diversidade humana como um fator impulsionador de novas formas de organizar o ensino e compreender como se constroem as aprendizagens. Sabemos que o processo de transformação da escola comum é lento e exige uma ruptura com os modelos pedagógicos vigentes. E sabemos também que em muitas escolas especiais os alunos lutam para aprender a mesma coisa que as escolas comuns tentam lhes ensinar, por tempo indefinido e indeterminado, sem que esses conhecimentos lhes possibilitem construir habilidades e competências para a vida. Se acreditarmos que o papel da escola é construir cidadania através do acesso ao conhecimento, isto só será possível se dentro da escola tivermos uma verdadeira representação do grupo social que está fora da escola: pessoas com diferentes credos, de raças diferentes, com saberes diferentes, pessoas sem deficiências (existem?) e pessoas com deficiência. A experiência de conviver com a diversidade, tão necessária para a vida, nunca será exercida num ambiente educacional segregado, onde a diversidade humana não esteja representada. As escolas especiais têm um papel muito importante a cumprir Pedagogicamente – e constitucionalmente! – elas existem para oferecer atendimento educacional especializado, e não educação especial. E o atendimento educacional especializado tem por escopo garantir aos alunos com deficiências especiais a possibilidade de aprenderem o que é diferente do ensino comum e desenvolver aquelas habilidades de que eles necessitam para poderem ultrapassar as barreiras impostas pela deficiência. Mas, para que o processo de inclusão realmente aconteça, precisamos abandonar o comodismo decorrente das nossas práticas homogeneizadoras, meritocráticas, paternalistas e corporativistas, sobretudo, e particularmente, quando trabalhamos com pessoas com deficiência mental. Como bem diz a Prof. Maria Teresa Mantoan, resistimos a inclusão escolar porque ela nos faz lembrar que temos uma dívida a saldar em relação aos alunos que excluímos, por motivos muitas vezes banais e inconsistentes, apoiados por uma organização pedagógica escolar que se destina a alunos ideais, padronizados por uma concepção de normalidade e de deficiência arbitrariamente definida. Alunos com e sem deficiência são excluídos da escola há muito tempo, sem que mudanças efetivas sejam feitas para resolver esse problema, as medidas até agora implantadas não passam de paliativos. Agora, porém, são os alunos com deficiência que freqüentam as escolas comuns que estão impondo a nós professores uma reflexão mais séria acerca da nossa concepção de escola e das nossas práticas pedagógicas. E já existem, no país todo, tanto em escolas comuns quanto em escolas especiais, inúmeras experiências bem sucedidas de pessoas e entidades, que, com responsabilidade, em alarde e com fundamentação científica sólida, estão abrindo o caminho da educação inclusiva e eliminando as velhas e bolorentas práticas excludentes da pedagogia tradicional. Há muitas escolas regulares que abriram as suas portas para alunos com deficiências especiais e tentam, seriamente, fazer uma escola de qualidade, com respeito a todos os alunos, deficientes ou não. E há também muitas escolas especiais que optaram por atender seus alunos no turno oposto ao que freqüentam a escola comum, com resultados altamente positivos. O argumento do despreparo dos professores não pode continuar sendo álibi para impedir a inclusão escolar de pessoas com deficiências. Se não estamos preparados, precisamos urgentemente nos preparar. E uma verdadeira preparação começa com a possibilidade e pelo desafio de acolher as diferenças na sala de aula e pela busca de novas respostas educacionais. Nesse processo, a responsabilidade é de todos – pais, diretores, supervisores, orientadores educacionais, professores, alunos – e, principalmente, das autoridades responsáveis pela definição e implementação das políticas educacionais. Inclusão não é favor para pessoas com deficiência. Ela é um direito.

 

Formar professores para essa escola significa formar para atuar com o múltiplo, com o heterogêneo, com o inesperado mudando nossa maneira de planejar, de ministrar as aulas, de avaliar, de pensar a gestão da escola e das relações dos professores com seus alunos. Nesse processo de mudança, o diálogo, a conscientização do professor e da escola, a utopia, que segundo Paulo Freire significa o inédito viável, deverão permear todo o trabalho educativo assegurado pela constituição, mas, ela é também um direito de todos os alunos, inclusive dos sem deficiência, (se é que eles existem) para que as desigualdades possam ser questionadas e a convivência baseada no respeito, na ética, na co-participação reforce o sentimento de pertença e de engajamento e busque alternativas para uma sociedade melhor, ancorada pela educação em toda sua complexidade que somente se efetiva num contexto permeado pela riqueza das diferenças. Discutir e propor alternativas para a consolidação de uma escola inclusiva é direito e dever de todos os que acreditam que a escola é o local privilegiado, e muitas vezes único, onde, de fato, os sujeitos de sua própria educação, quaisquer que sejam suas limitações, podem fazer a experiência fundamental, e absolutamente necessária, da cidadania, em toda sua plenitude.

Esse é o video do Carlinhos e do amigo dele.

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~ por laurams em abril 18, 2008.

10 Respostas to “Escola de qualidade para TODOS!”

  1. Laura, fazia tempo que nao passava por aqui para te ver meu anjo. Hoje tive uma folguinha e como tinha que postar para a coletiva resolvi passar aqui. E que lindo seu post. Muito legal voce ter escrito, e nos ensinado, sobre a educacao inclusiva. O texto de sua mae eh fantastico !

    Esse video que voce mostrou no final eu ja conhecia e sempre o achei muito bem feito.

    Enfim, parabens pelo post e pela abordagem que fizeste.
    bjs no coracao,
    Lys

  2. Olá Lys, que bom que voltaste.
    Esse video é bem antigo, mas eu não canso de olhar.
    Resolvi falar sobre alfabetização dos deficientes tb, pq imaginei que ninguém ia falar.

    Bjoss

  3. Teve um blog que falou sobre a dislexia. De uma olhada:

    http://ajudandonatureza.blogspot.com/2008/04/luta-contra-o-analfabetismo.html

    Eu falei para ele olhar o seu que fala sobre educacao inclusiva.
    beijos
    Lys

  4. Olá, Laura
    Gostei muito da sua abordagem nessa blogagem coletiva contra o analfabetismo.
    A escola inclusiva já é uma realidade, embora precise ainda de muito aprimoramento.
    Sou mãe de um menino com necessidades especiais e também bloguei abordando a “pessoa deficiente”, é uma bandeira solitária, mas quando encontramos pessoas como você, passamos enxergar a luz no fim do túnel.
    Bjs,
    Denise BC

  5. Denise, que bom que gostaste do texto, ele é da minha mãe, ela é pedagoga e há anos é consultora de escolas que querem “adotar a inclusão”. Graças a isso, minhas irmãs e eu fomos criadas desde pequenas tendo certeza de que a inclusão é o caminha natural na sociedade – ou deveria ser. Na nossa cabeça a escola inclusiva é tão natural quanto respirar. Tudo o que exclui qq ser humano é que é torto. Só quem tem medo do desafio não vê que a inclusão beneficia a TODOS OS ALUNOS, pois faz com que os próprios professores tornem-se mais sensíveis às necessidades individuais de cada um deles. Claro que isso se faz com medidas como a redução de alunos por sala de aula e com o aprimoramento dos professores, mas acredito que isso esteja acontecendo no Brasil.
    Obrigada pela visita e volte sempre,

    Bjos

  6. […] Laura […]

  7. Laura, você abordou a deficiência uma parte desse tema tao complexo. Aqui temos escolas especiais para essas criancas e outras que preferem trabalhar juntas com essas criancas. Meus filhos eu os matriculei num jardim de infância em que eles tinham o contato com as criancas com Sindrome de Down. Queria que eles crescessem conhecendo essas criancas e respeitando-as.
    Eu só tenho a agradecer tao bela postagem, com um texto tao enriquecedor quanto este.

    Muito obrigada pela participacao, pela forca e por todo o cuidado que você teve em abordar esse tema tao difícil.

    Grande beijo

  8. […] Laura […]

  9. Bom Georgia, só tenho que te dar parabéns por teres matriculado teus filhos numa escola “para todos”, pois nessa idade em que eles estão, não poderiam ter escolhido essa alternativa, por isso o papel dos pais nessa hora é determinante. No futuro tenho certeza que eles te agradecerão, pois conviver e aprender com as diferenças é um grande privilégio, e só pode ser entendido dessa forma.
    Isso foi o que aconteceu com minhas irmãs e comigo, provavelmente nós tenhamos essa facilidade em aceitar e defeder a inclusão pois fomos criadas aprendendo que isso é o correto e que a escola tem que ser um espaço onde toda a sociedade deve estar representada.
    Obrigada pela visita e volta sempre.

    Bjoss

  10. Laura

    Estou de volta de uma viagem,sendo assim só hoje pude ler os comentarios sobre a postagem do analfabetismo,vim conhecer seu blog e li a sua materia,concordo com vc que e a inclusão tem que ser para todos,pois somos um pais só,parabens.
    Abç

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