“Não há diálogo com o pescoço na forca!”

Nunca escrevi sobre ela nesse espaço, não por falta de admiração (que só faz aumentar) mas porque ela é uma mulher extremamente discreta, discrição essa, diretamente proporcional à competência.

Estou falando da ministrada Casa Civil, Dilma Rousseff. Dilma formou-se em economia na UFRGS, fez mestrado e doutorado em Teoria Econômica na Unicamp. Ocupou a secretaria de Minas e Energia nos governos Collares e Olívio Dutra, em 2002 foi nomeada para o Ministério de Minas e Energia do governo Lula, de onde, em 2005, se transferiu para a Casa Civil, quando o Ministro José Dirceu deixou o cargo.

Muito antes disso, nos idos da ditadura militar, época em que a população colocava a coragem e as opiniões sob os colchões, Dilma pegou em armas e lutou pela redemocratização do país, ficou presa durante três anos, sofrendo todo o tipo de tortura, prática usual naqueles tempos.

Dilma levou choques, foi para o pau-de-arara, foi queimada, etc, mas NUNCA entregou seus companheiros de guerrilha. Ela mentiu para os torturadores, mesmo sofrendo os mais atrozes suplícios. Por isso, foi chamada, pelos promotores militares, de “Joana D’arc da guerrilha”.

A Ministra, hoje, compareceu a uma sessão da Comissão de Infra-Estrutura do Senado, para responder a questões relativas ao PAC, mas como se previa a oposição massacrou Dilma com perguntas sobre o “dossiê” com gastos do ex-presidente FHC (“O Farol”). O senador José Agripino Maia (DEM-RN), numa atitude deplorável, questionou se a ministra também iria mentir na comissão como fez aos torturadores na época da ditadura. Nesse momento ela se sobressaiu, porque é em momentos de pura ignorância que as grandes personalidades, serenamente, esmagam os menores.

Nas palavras da Ministra, os fatos:

“Eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador”

“não há possibilidade de diálogo” quando se tem pela frente o “pau de arara, o choque elétrico e a morte”.

“O regime que permite que eu fale com os senhores não tem a menor similaridade [com a ditadura]. Nós estamos em igualdade de condições humanas, materiais. Não estamos no diálogo entre o pescoço e a forca, senador. Por isso acredito e respeito esse momento. Isso é algo que é o resgate desse processo que ocorreu no Brasil”.

Eles queriam massacrar Dilma e foram esmagados pela serenidade da Ministra. Ademais, quando perguntada sobre o que interessava, o PAC, ela demonstrou conhecimento e uma competência ímpares acerca dos problemas do país. Dilma tem, na ponta da língua, as necessidades e problemas estruturais de cada região do Brasil,  ela é tranqüila, preparada, articulada, educada. No que concerne à competência e transparência, a inquirida da comissão foi e é infinitamente superior a qualquer um dos senadores. Isso foi reconhecido pelo senador Suplicy, que ressaltou que não há um senador que conheça melhor que Dilma, a realidade brasileira.

Acho que acompanho a política desde os 7 anos, quando meus primos, minha irmã e eu ganhamos de presente da minha tia uma urna com cédulas de votação, feitas em mimiógrafo. Lembro bem que os candidatos contantes na nossa “cédula” eram os principais candidatos a presidente em 1989. Pois bem, desde aquela época, nenhum político conseguiu me causar a admiração, a confiança e respeito que a Dilma.

Era previsto que a oposição tentaria – e tentará – manchar a reputação da Ministra, mas além de tudo, ela é muito mais esperta do que aquela dúzia de urubus, que se preocupam em manter seus privilégios e não sabem a diferença de uma reunião num sistema democrático e de uma sessão de tortura.

Agripino Maia: A senhora mentiu na ditadura, mentirá aqui?

Ministra Dilma Rousseff:

Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira, só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira.

Eu tinha 19 anos, fiquei três anos na cadeia e fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para os seus interrogadores, compromete a vida dos seus iguais e entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido senador, porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia se fala a verdade, diante da tortura, quem tem coragem, dignidade, fala mentira. E isso (aplausos) e isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, que eu tenho imenso orgulho, e eu não estou falando de heróis. Feliz do povo que não tem heróis desse tipo, senador, porque agüentar a tortura é algo dificílimo, porque todos nós somos muito frágeis, todos nós. Nós somos humanos, temos dor, e a sedução, a tentação de falar o que ocorreu e dizer a verdade é muito grande senador, a dor é insuportável, o senhor não imagina quanto é insuportável. Então, eu me orgulho de ter mentido, eu me orgulho imensamente de ter mentido, porque eu salvei companheiros, da mesma tortura e da morte. Não tenho nenhum compromisso com a ditadura em termos de dizer a verdade. Eu estava num campo e eles estavam noutro e o que estava em questão era a minha vida e a de meus companheiros. E esse país, que transitou por tudo isso que transitou, que construiu a democracia, que permite que hoje eu esteja aqui, que permite que eu fale com os senhores, não tem a menor similaridade, esse diálogo aqui é o diálogo democrático. A oposição pode me fazer perguntas, eu vou poder responder, nós estamos em igualdade de condições humanas, materiais. Nós não estamos num diálogo entre o meu pescoço e a forca, senador. Eu estou aqui num diálogo democrático, civilizado, e por isso eu acredito e respeito esse momento. Por isso, todas a vezes…eu já vim aqui nessa comissão antes. Então, eu começo a minha fala dizendo isso, porque isso é o resgate desse processo que ocorreu no Brasil. Vou repetir mais uma vez: Não há espaço para a verdade, e é isso que mata na ditadura. O que mata na ditadura é que não há espaço para a verdade porque não há espaço para a vida, senador. Porque algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir a morte. É só errarem a mão no seu interrogatório. E eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diversos da nossa vida em 70. Eu asseguro pro senhor, eu tinha entre 19 e 21 anos e, de fato, eu combati a ditadura militar, e disso eu tenho imenso orgulho.

 

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~ por laurams em maio 8, 2008.

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